Museu Nacional - UFRJ

A guerra colonial

A coleção de armas africanas do Museu Nacional nos oferece possibilidades de estudo que vão além da ideia funcional de “ataque e defesa”. Elas nos convidam a pensar como portadoras de histórias de poder. Não podemos concebê-las apenas como instrumentos de guerra, caça ou outras atividades ligadas à sobrevivência cotidiana. Algumas delas são objetos rituais e denotam o status social de quem as detém.

Todas possuem uma parte de metal cortante ou perfurante. A metalurgia foi uma tecnologia criada pelos povos do tronco linguístico Bantu, hoje representados por mais de 500 grupos étnicos distribuídos por toda a África subsaariana. O conjunto de armas expostas foram coletadas no século XIX e são quase todas provenientes do Vale do Rio Zambeze. A região, rica em minérios, possibilitou a utilização em abundância de alguns metais, tais como o zinco e o cobre – e a liga formada por estes dois, que dá origem ao latão.

O trabalho com fios de latão está presente na maioria das armas em exibição na sala Kumbukumu. Há referências de que esta técnica era desenvolvida pelos Shona, um macrogrupo etnolinguístico do tronco Bantu. Os Shona foram o maior grupo a se estabelecer no Vale do Zambeze. Atualmente, estas armas ornadas em fios de latão são muito apreciadas pelo mercado ocidental de arte africana.

Os machados com lâmina à semelhança de um “bico de pato” seriam originários dos Nama (ou Namaqua), um povo que habita territórios da Namíbia, da África do Sul e de Botswana. Nos primeiros anos do século XX, os alemães, então colonizadores da Namíbia, expulsaram os Nama e os Herero de suas terras. Em 1904, depois de uma série de conflitos, o exército alemão avançou sobre o território dessas populações, que foram praticamente dizimadas (muitos foram feitos prisioneiros ou escravos). Mais de 70% dos povos expulsos da Namíbia morreu de fome e sede no deserto, desencadeando o primeiro genocídio do século XX.

O conjunto destas armas evidencia assim outro tipo de poder: o poder afirmado pela dominação colonial. As “armas” foram retiradas de seus povos originais durante a exploração europeia do continente africano e sofreram um processo de resignificação. Ela deixa de ser símbolo de bravura, coragem e resistência para se tornar uma representação da inferioridade do vencido. Passa a ser uma peça “primitiva” de contemplação. Hoje, é fundamental que os museus descolonizem suas coleções a fim de “libertarem” os objetos e suas histórias, abrindo espaço para a ocupação de outras narrativas.


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